Num destes dias e num diálogo algo enrolado via messenger com uma menina que se cruzou na minha vida há muito tempo atrás e com quem nunca mais falei desde então, dei por mim a pensar que, tanto as pessoas que me conhecem bem, como aquelas que me conhecem mal ou mesmo as que não me conhecem de todo, ao ler este blog, podem ficar com a impressão que me conhecem e ficam a saber se ando bem, mal, mais ou menos, assim assim ou nem por isso.
A verdade é que, um pouco à semelhança de um balanço de uma empresa, cujo registo é uma fotografia à data do dia em que foi efectuado, normalmente no último dia do ano, os blogs, pelo menos este aqui, representam meras fotografias de um dado momento no tempo.
Portanto, só para ficarmos claros quanto a esta matéria, cada artigo deste blog representa uma mera fracção de um dado momento de coisas e merdas da minha vida. Meros fragmentos que, mesmo que colados um por um, não chegam para conhecer o que vai aqui dentro.
Porque, mesmo algumas pessoas que dizem que me conhecem, se calhar, nunca me conheceram verdadeiramente e quem melhor que eu para dizer quem na realidade me conhece ou não?
É só para ficar registado em acta mais nada.
Está quase a fazer um ano desde que te escrevi pela última vez. Entretanto, tanta e muita coisa aconteceu desde essa altura. Mas não é sobre isso que te escrevo hoje. Hoje escrevo-te sobre laços de sangue, família e amizade.
Sabes, chegado a este ponto da viagem, a que tão genericamente chamamos de Vida, vejo-me confrontado com alguns princípios e valores que as pessoas tão gratuitamente falam mas que pouco valem nos momentos de verdade.
O que é afinal aquilo que nos une a todos meu caro? O que é que afinal, efectivamente conta, como elo de ligação entre 2 pessoas? O que importa para nos sentirmos unidos e parte integrante de uma outra pessoa, seja ela namorada, mulher, amigo, irmão, pai ou mãe? Será o sangue? Serão os laços legais e/ou afectivos? O que será? O que importa?
Sabes diário, ao longo deste tempo todo em que te escrevo, reparei que há dois denominadores comuns. Um é a Família e outro são os Amigos, os verdadeiros, não aqueles que banal e ligeiramente se intitulam de amigos. Mas, chegado a esta altura da viagem, é com enorme desilusão mas também com toda a convicção que compreendi que laços de sangue não contam afinal para nada. Laços de sangue, meu caro diário, são fruto de um destino aleatório que um dia uniu 2 seres, 2 pessoas, para todo o sempre, pela partilha de um ADN comum.
Um dia, há muitos anos, tinha eu começado a trabalhar, disseram-me que é comum dar-se muitas palmadinhas nas costas mas não é com palmadinhas que se compra o arroz e o pão. E meu caro diário, os laços de sangue, sabes, são a mesma coisa. Não é esse atributo, per si, gerado por mero acaso do destino, que une as pessoas. O que adianta dizer que fulano é meu pai se ele nunca esteve presente na minha vida? Poderia contar, poderia ser importante - e sê-lo-ia de certeza – se aparecesse quando os meus princípios e valores estavam em formação. Mais novo, muito mais novo. Não o é agora. Agora seria mera estatística, mais nada meu caro diário, nada mais que isso.
O que conta, chego a esta conclusão convictamente, são os actos. É a presença incondicional. É o carinho, o Amor, a Amizade, o afecto, o respeito e toda uma série de infindáveis cruzamentos e partilha de vida. Sem isto, laços de sangue são iguais a zero meu caro diário. Sem o que de facto conta e importa, laços de sangue são das maiores hipocrisias que o ser humano inventou para se distanciar dos animais e ao mesmo tempo serve como desculpa miserável para estar presente quando não quer estar presente – geralmente nos funerais - para manter as aparências perante esta sociedade tantas vezes fútil, quando de facto, se está pura e simplesmente nas tintas. Laços de sangue são hipócritas meu caro, laços de sangue são uma farsa quando não existe mais nada.
Nós somos histórias, já o tinha dito uma vez neste blogue meu caro. Somos, a cada dia, resultado e fruto do nosso passado contínuo, começado a construir no momento em que adquirimos consciência. A nossa formação, os nossos princípios e valores, são fruto do caldo em que crescemos e nos formamos como pessoas, indivíduos, homens e mulheres. Esta é uma lição que não me hei-de esquecer e irei lembrar-me no dia em que for pai. Porque aquilo que somos, dizemos e fazemos a uma criança, manifestar-se-á quando ela for adulta. Para o bem...e para o mal. Mas sobre isto falaremos outra vez, outro dia, outra altura.
Sabes diário, tem sido uma viagem incrível, esta que me tens levado. Só é pena a estrada estar completamente esburacada e desnivelada, mas creio que estás a resolver isso em conjunto com o nosso anjinho da guarda. Estou certo que, não tardará muito, e terei uma estrada completamente asfaltada. Com obstáculos e outras curvas é certo, mas desta vez com a certeza do que quero, para onde vou e, mais importante até, do que não quero e para onde não quero ir.
E o que eu não quero no dia em que fechar estes olhinhos para sempre, é ter “laços de sangue” ao meu lado. Tu percebes-me caro diário, eu sei que sim…
Fica bem meu caro diário, até à próxima.
É nestes dias, quando a chuva cai aos litros do céu, os trovões ecoam na cidade e os relampâgos iluminam a noite escura, que me lembro dos tempos em que um menino, às escondidas da mãe, trepava ao telhado do prédio de 3 andares e ficava ali, sentado, a contemplar a fúria da natureza, como se fizesse parte dela.
Um menino a sorrir perante tão grande força, tão grande poder.
E, hoje, ao ouvir esta música, recordo-me da primeira vez que fui ao Frágil no Bairro Alto. Era a música que estava a tocar nessa altura...e recordei-me da letra...e daquele telhado, do meu canto, ao lado da chaminé...
I sat on the roof
And watched the day go by
I see the likeness in his smile and the way he stands
Makes it all worthwhile
Eu sei que disse que era o final...por 2 vezes. Mas cheguei à conclusão que, dada a natureza deste blogue e a razão da sua criação, mais valia fazer um facelift, eliminar alguns artigos que estavam a mais e continuar. Porque, pronto, no fundo, no fundo, esta merda acaba por ser, mais treta, menos treta, como as nossas vidas. Arrumamos a casa, limpamos as gavetas e deitamos fora o que não interessa e seguimos em frente com as nossas vidas porque, enfim, porque sim, porque é o que tem que ser.
E porque o mundo não vai mudar. O nosso mundo não vai mudar e eu não vou mudar o que sou e quem sou.
Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.
(Carlos Drummond de Andrade)
Orchard Road é um daqueles clássicos que quando ouvimos transporta-nos logo às primeiras namoradas e às cenas parvas que faziamos na altura e que não faziamos ideia que continuariamos a fazê-las muito mais tarde.
Antes que perguntem, não, aquela coisa rosa choque que a gaja segura na mão não é um vibrador. É mesmo um telefone.
Antes do infeliz advento dos telemóveis e internet, um gajo para curtir a sua ressaca, agarrava-se mesmo a uma cabine telefónica e ligava e desligava, ligava e desligava. Ou marchava em frente à casa da rapariga e ficava ali a uivar como um cão vadio. Trocava uns olhares nos corredores do Liceu, bilhetinhos anónimos, escritas nas paredes e nas mesas das salas de aula.
Na altura não faziamos ideia que iriamos repetir a cena algumas poucas de vezes. Mas agora somos mais sofisticados. Vamos passear para uma praia deserta às 3 horas da madrugada, apanhamos chuva nos cornos e nem sentimos nada. Continuamos a uivar à lua cheia como se não houvesse um amanhã e, enfim, googlamos freneticamente.
No fundo, no fundo, é genético. Um gajo vai ser sempre um menino nestas merdas...
E o Leo Swayer com aquela voz de desespero é que sabe bem o que é esta merda de ser um gajo...
(e não é que ainda sei a letra de cor...)
Acordar a meio de uma madrugada, ventosa, chuvosa, merdosa. Escarafunchar os olhos e arrebanhar aquela substância branca que nos cobre os cantos. Coçar a cabeça violentamente, coçar a nádega direita em slow motion e tentar, ao mesmo tempo, adivinhar em que fuso horário nós estamos e o que raio estamos a fazer acordados em horas perfeitamente pornográficas quando no dia a seguir temos que levantar o chassis para ir trabalhar.
Ao longe, chega-nos a memória de um sonho. Mas um sonho perfeitamente parvo, anormal, esquizofrénico. Um sonho onde eu tentava espremer uma espinha que me chateava a epiderme há longas horas. Mas porque carga de caralhos andava eu a sonhar com espremer espinhas? E porque raio é que eu estava acordado por causa de uma pasniguice de um sonho daqueles?
No meio daquelas dissertações mentais, instintivamente levo o meu anelar direito à cara e tinha mesmo uma espinha...e grande para caraças. Mas isso para um gajo não é tormento. O meu problema não era a espinha. O meu problema era mesmo porque raio estava eu a sonhar com esta merda.
Arrasto-me esforçadamente e coloco-me estrategicamente em frente a um espelho e espremo a gaja ao mesmo tempo que um repuxo salta para o espelho. Fico todo satisfeito, feliz comigo mesmo e com aquele momento épico e ao mesmo tempo faz-se luz...caralho, estou a voltar ao normal. Foda-se, estou mesmo a voltar ao normal.
Há alturas na vida de um gajo em que, por diversos motivos, os quais demorariam uma eternidade a explicar e, verdade seja dita, são perfeitamente irrelevantes para o caso, alteramos o nosso comportamento padrão e até mesmo a nossa maneira de ser. Atendendo à célebre lei da fisica quântica que nos diz que os gatos escaldados de água fria têm medo, um gajo, depois de levar um valente soco no céu da boca, tem tendência para andar uns tempos na posição de defesa, não vá a vida lembrar-se de nos enfiar mais uma galheta no meio dos olhos.
No meio disto tudo, um gajo lá vai seguindo a sua vidinha e nem sequer tem consciência que mudou. E se tem, voltar ao Gajo que era, é uma tarefa colossal porque infelizmente não nascemos dotados de um maravilhoso e fantástico interruptor que faria autênticos milagres nas vidas das pessoas.
Compreender e adquirir a consciência que estamos num estado filho-da-putativo, a modos que num caralho de uma Twilight Zone, é uma arte digna de um grande Gajo. Não é para meninos, não é para putos, esta merda é só para Homens. E é, será, o primeiro passo para a mudança.
Mas, convenhamos, ter uma epifania de madrugada, com um sono do camandro e o canto dos olhos cobertos de uma matéria branca não era necessário. Mas, pronto, conformo-me, estou a voltar ao anormal. E ainda não acordei a perguntar se a sala está pressurizada ou a gritar se é para formar, porque quando isso acontecer, então, estarei definitivamente de volta!
Vencer o movimento através da quietude (Yi Jing Zhi Dong)
Vencer a dureza através da suavidade (Yi Rou Ke Gang)
Vencer o rápido através do lento (Yi Man Sheng Kuai)
Um gajo, no antigamente, queria-se feio, porco e mau. E isto tem uma razão de ser. Razão essa completamente estrutural. Era ao gajo que competia defender a ninhada e a fêmea dos ataques de outros gajos. Quanto mais feio, mais porco e mais mau, melhor. Isto, no fundo, é nada mais nada menos que o equivalente ao bater violentamente com os punhos no peito dos gorilas macho ou exibir narcisisticamente a unha com 10 cm do dedo mindinho, chafurdando-a cruelmente no canal auditivo.
Esta prosépia toda, perfeitamente prolixa, assumiu-me à tola enquanto a mesma era massajada carinhosamente por uma voluntariosa assistente de cabeleireiro. Aliás, a coisa era de tal modo bem feita que os pêlos dos braços ficaram todos eriçados e soltei um leve gemido, o que levou a olhares reprovadores de todas as gajas, cheias de rolos e prata de chocolates no cabelo, que povoavam o salão.
Um gajo de facto habitua-se mal. Tenho saudades, de certa forma, do grande Tiago, meu barbeiro desde os 16 anos até aos 32. Um gajo entrava na barbearia, onde gaja não entrava. Mandava-se umas caralhadas, via-se a bola, falava-se de gajas como quem fala de bolas de berlim. O Tiago, perdia-se em tesouradas no ar enquanto via o glorioso a jogar à bola e um gajo lá tinha que lhe mandar uma cotovelada “tão Tiago, corta lá essa merda”. Os cabelos da malta todos espalhados no chão que até os filhos da malta conseguiam fazer patinagem artistica a derrapar naquela caspa toda. E a malta divertia-se. Gajas, se há coisa que um gajo consegue ser fiel, é ao seu barbeiro. Isto é uma verdade absoluta. Tão certo como a outra ser o contrário.
Entrar num cabeleireiro é, de todas as vezes, como entrar numa nave espacial. Somos comidos de alto a baixo, medidos, pesados e cheirados. Temos que fazer de conta que estamos interessados naquela conversa da treta “então, o trabalho vai bem? A vida também? Ah, mas o seu cabelo está muito mais forte. Está com mais brancas mas fica mais charmoso” sim, e tal, pois é, despacha-me mas é daqui para fora e rápido. Depois sentimo-nos estúpidos quando temos que atravessar o salão com uma toalha no cachaço e aquele avental, enquanto o gajâme afia as unhas dos pés.
Mas um gajo habitua-se a este bem bom. É o cheirinho, a massagem, não é com aquela navalha de barbeiro, é o gel mousse com essência de baba de rotweiler. E depois admirem-se que um gajo comece a gostar desta merda e não consiga defender a ninhada porque estamos ocupados a limar as unhas dos pés.
On the floating, shapeless oceans
I did all my best to smile
til your singing eyes and fingers
drew me loving into your eyes.
And you sang "Sail to me, sail to me;
Let me enfold you."
Here I am, here I am waiting to hold you.
Did I dream you dreamed about me?
Were you here when I was full sail?
Now my foolish boat is leaning, broken love lost on your rocks.
For you sang, "Touch me not, touch me not, come back tomorrow."
Oh my heart, oh my heart shies from the sorrow.
I'm as puzzled as a newborn child.
I'm as riddled as the tide.
Should I stand amid the breakers?
Or shall I lie with death my bride?
Hear me sing: "Swim to me, swim to me, let me enfold you."
"Here I am. Here I am, waiting to hold you."
Não é sempre. Nem perto disso. Mas raríssimas vezes, muito raras vezes nos últimos tempos, acordamos, esfregamos a remela dos olhos, abrimos a janela e apanhamos com o sol de Setembro, outunado, a fazer lembrar aquelas manhãs de Domigo de Outono, em que colocamos a cabeça de fora e aquecemos um bocadinho.
E quando damos por nós, estamos a tomar banho e a mexer os pezitos. E mais espanto é quando saimos do banhoco e ainda continuamos a cantarolar. E porque não? Zarpamos em direcção à praia. Levamos o material nas orelhitas, a musiquinha sempre em repeat, o mar a molhar os pés. Um cão que vem ter connosco, uma criança que sorri. Umas gajas que olham para a nossa cara de parvo. Umas gaivotas que andam para ali aos saltos. Uma senhora a apanhar o sargaço, o cheiro a maresia no ar e aquela areia a massajar os pés.
E aquele Sol fantástico...
Someday I'll wish upon a star,
Wake up where the clouds are far behind me
Where trouble melts like lemon drops
High above the chimney top that's where you'll find me
. Poder
. 1983
. Espinhas
. Paz...
. diário na 2ª pessoa do singular
. merdas
. outras paragens
. Blue258
